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O simples prazer de ver a luz atravessar um frasco de vidro

o mar fica lá
o mar fica lá

Hoje aconteceu algo curioso quando eu estava entrando na casa da Lara e do Maurício. Um frasco de perfume nu, sem tampa, sem rótulo e sem qualquer conteúdo, estava tomando sol sobre um velho fogão a lenha que agora serve para apoiar algumas coisas nas bocas e esconder outras dentro de um forno cheio de teias de aranha.

Esse tipo de objeto não é raro na casa deles. Todos os chalés que compõem o pequeno hotel deles, lá no alto do Morro do Cantagalo, o “Lar da Lara”, estão repletos de objetos curiosos: antiguidades, tábuas de madeira que poderiam ter ido para o lixo e que viraram janelas, troncos polidos que servem de bancada, engrenagens de fábricas fechadas há décadas que hoje são o esqueleto de um corrimão, figuras de sereias de bronze como postigos nas portas.

E, claro, as garrafas. Nas paredes de todos os chalés do Lar, incrustadas durante o processo de construção, fileiras de garrafas, algumas vazias e muitas cheias de água, fazendo parte da estrutura como se fosse a coisa mais natural do mundo: colocar garrafas dentro da parede.

As garrafas foram resgatadas de diferentes origens e abandonos. O olhar estratégico de Maurício, que enxerga com a despreocupação confiante de um adolescente aos 68 anos, as salvou de um destino comum e deu a elas o nobre propósito de enfeitar as paredes dos seus chalés.

O dia todo as paredes brilham, as garrafas sabem engolir a luz do dia e espalhá-la dentro das casas, tingidas pelas cores do vidro.

Há garrafas de vinho, verdes e finas; garrafas largas, transparentes, vermelhas e alaranjadas. Em algumas paredes, garrafões de vidro grosso. Algumas estão cheias até a metade de água, outras completamente cheias e leva um tempo pra perceber: a luz passa pelo sólido e pelo líquido e sai intacta, como se fosse só ar.

Quantas vezes me entreti olhando como uma criança as coisas do outro lado da garrafa. Com o tempo virou algo tão natural quanto olhar pela janela. Uma pequena brincadeira: o mundo se curvava e se coloria do outro lado da garrafa. Dentro, a água quieta parecia à espera de ser movida. Então eu batia com os nós dos dedos, ou com a unha, pra que ela me devolvesse aquele tilintar seco, que parece ficar mais grave quanto mais cheia estiver a garrafa. A água permanecia indiferente à minha curiosidade.

Os chalés estão construídos de frente para o continente, no meio o mar e seus brilhos. De manhã, o morro dá as costas pro sol. Ao meio-dia, morro e sol brincam de ver quem pisca primeiro. São mais de seis horas de sol direto, intenso e teimoso. Às vezes agradeço a chuva e os dias nublados. Mas não dá pra negar o encanto daquele brilho frenético e dourado. Um teto basta pra refrescar agora que é inverno, embora essa palavra ganhe um significado completamente diferente nessas latitudes.

Sol e vidro, o frasco de perfume.

Tem uma reentrância muito peculiar na base, como a pata de um camelo (o leitor é livre pra fazer sua associação com a expressão vulgar camel toe do inglês). O pescoço do frasco é estreito, como uma girafa. Esses traços denunciam sua função original, e temo que seja a única, porque uma escultura assim não parece servir pra mais nada além de ser um bonito pedaço de vidro. A Lara deixou ele lá fora junto com outro, de forma mais comum, do qual só consigo lembrar do brilho. Estavam com algumas louças da cozinha, pra tomar sol. Parece que é coisa da Bahia deixar a louça no sol pra secar melhor. Ela — que se orgulha de ser baiana em meio a terras paulistanas —, outro dia me explicou isso, interrompida pelos gestos do Maurício, que me olhava como quem diz: “coisas dela, que é meio doida”.

Segurei o frasco e me admirei com a qualidade da limpeza: nem um grãozinho de sujeira, nem sequer as marcas da água ao secar.

O encanto prismático daquele pedaço de vidro com pescoço de girafa me deixou absorto. Talvez só por alguns segundos. Mas completamente absorto por cinco segundos inteiros, o que me parece um nível exagerado de devoção por um simples frasco de perfume.

casa da Lara e do Maurício, um sábado de cozinhança (eu fazia risoto de camarão, Angélica preparava merluza no forno, e a Lara fazia carne moída para a semana). Na foto: eu, Angélica, Maurício e Mônica. A Lara tirou a foto
casa da Lara e do Maurício, um sábado de cozinhança (eu fazia risoto de camarão, Angélica preparava merluza no forno, e a Lara fazia carne moída para a semana). Na foto: eu, Angélica, Maurício e Mônica. A Lara tirou a foto

Conforme o dia foi passando, o sol foi descansar atrás de algumas nuvens e me deu um alívio nessa hora em que costumo me refugiar dele pra não suar, pra que o brilho não me impeça de ler. Costumo usar uma lona pra evitar que ele entre no meu chalé, que batizei de “Lar do Marquitos” — muito importante usar o diminutivo correto em espanhol: “Marquitos”, e não o brasileiro “Marquinhos”, também bastante comum. Quando vi que o dia tinha nublado, levantei a lona. É uma pena que o mar perca seu brilho cristalino quando o sol se esconde. O que terá sido? Fiquei pensando no frasco de perfume.

É muito mais que isso.

Ali está a constância da neurose da Lara em deixar os frascos o mais limpos possível. Isso envolve um processo de tirar os rótulos colados nas garrafas com uma cola muito forte que dá trabalho pra sair. Eu sei porque já tentei uma vez tirar os rótulos dos vinhos que bebi pra fazer coleção, e desisti na segunda garrafa.

Me pergunto se a insistência da Lara vem inspirada pelo mesmo prazer que eu sinto ao ver os frascos vazios. A casa está cheia deles. São oito chalés no Lar, mais a casa deles e o Lar do Marquitos. Ela sabe exatamente quais frascos estão em qual chalé (e quais facas, panelas, frigideiras...). Se ela te der algo num frasco, vai esperar que você devolva o frasco depois de comer o que quer que ela tenha te dado (da última vez foram umas nozes caramelizadas, deliciosas).

Às vezes me divirto só olhando algumas garrafas vazias e impecáveis que ficam sobre uma das mesas lá fora, sinto uma necessidade repentina de enchê-las com alguma coisa, seguida de um arrependimento imediato, porque qualquer coisa que não fosse ar estragaria um vidro daqueles.

Porque é a luz atravessando o vidro que me mantém absorto.

A palavra vidro vem do latim vitrium, filha da raiz wed-ro do protoindo-europeu, com o significado de algo “parecido com a água”. Água em espanhol vem de outra raiz: akwa, mas wed, na sua metamorfose germânica, virou water, wet, entre outras; e também gerou o grego hydor, de onde vem o prefixo hidro no espanhol, e todas as palavras derivadas (hídrico, hidrogênio...).

Existe uma confusão quanto à origem de vitrium, porque a palavra era usada tanto para o material sintético quanto para uma planta, vulgarmente chamada de “erva pastel”, usada ao longo da história pra tingir de azul. Uma teoria propõe que venha de videre, verbo latino que significa “ver”. Parece lógico à primeira vista, sendo o vidro um material que permite olhar através. Mas nem sempre a origem das palavras é lógica ou linear: os primeiros vidros não eram transparentes, e não dava pra ver através deles. De qualquer modo, não parece coincidência que a raiz indo-europeia de ver seja weid, muito parecida com wed de vidro.

De vidro derivam palavras como vitrais e vítreo (como o “humor vítreo” do olho, aquela substância transparente que dá sustentação às estruturas oculares). Outra palavra tipicamente associada ao vidro é cristal... mas já volto a ela.

Antes vamos ver o que acontece com as línguas germânicas. Em inglês, vidro é glass, que vem da raiz indo-europeia ghel, que significa brilhar.

Associadas a glass há várias palavras em inglês que começam com gl-, todas aparentadas: gloom, glow, glitter, gloss, gleam; todas ligadas a diferentes comportamentos da luz. Também há formas de ver: glance, glimpse, glitch.

Nessa pequena investigação, me deu uma curiosidade. Fiquei frustrado e com ciúmes do inglês, que sempre achei uma língua mais transacional, taxativa e menos plástica que o espanhol. Agora eu me via diante desse pequeno universo de luzes que acendem, apagam ou ficam apenas titilantes. Tentei pensar seriamente em equivalentes em espanhol. Sim, há dezenas e dezenas: destello, resplandor, lumbre, penumbra, umbra, tiniebla, encandilar... Todas de raízes diferentes, parecem revelar a versatilidade e a riqueza semântica do espanhol.

Por outro lado, será que tantas palavras começadas com gl- em inglês têm mesmo relação com glass? Comecei por glaciar, cuja proximidade com o vidro parecia óbvia já que... cristal... —já volto ao cristal—. Glaciar existe tanto no espanhol quanto no inglês, vem do latim glacies, que significa gelo, e apesar de parecido com vidro, não vem de glass. Seguindo com outras: gloria e globo também não vêm do vidro: gloria vem do latim cloria, a letra g foi acrescentada depois. Parecida com glass, mas muito distante. Aliás, cloria vem do grego kleos, que significa fama, e deu origem a nomes como Cleópatra (Cleo: glória, patra: pátria).

O caso de globo é daqueles em que a ideia imaterial associada à palavra encontrou uma manifestação física perfeita. Globo significava inicialmente um conjunto de coisas coesas, como dizer: o mundo, um todo. Depois foi usado pra se referir ao planeta: “globo terrestre”, e se associou à esfera. Um globo amalgama, junta. Por isso, a raiz proto-indo-europeia de onde vem: gel, gerou também a palavra glúten, o componente que dá estrutura aos pães ao serem assados. Antes de ser glúten, a raiz glew tomou outro caminho: no lado germânico virou glitus, e chegou ao inglês antigo como cliða (gesso), algo sólido e moldável. Estranhamente próxima está a raiz glei, de onde vem o inglês clay: argila, outro material que se molda e solidifica.

Mas eu continuo percebendo a noção de vidro por aí, já não pelo lado óptico, isso é claro. Mas em tanto que plástico —no sentido de ser moldável (usar a palavra plástico enquanto falo de vidro é uma ironia curiosa)—, o vidro vira recipiente, utensílio, vaso, taça, garrafa; e se quebra e é tão frágil quanto os outros já mencionados.

Então me perguntei: o que pode ser mais brilhante, transparente, claro e reluzente que o glamour? Mas não, aí tem outro engano: glamour é de origem escocesa —não francesa como eu imaginava—, e vem da modificação de grammar, isso mesmo: gramática. O que tem a ver gramática com Greta Garbo? Que lá na Idade Média, considerava-se a gramática como a arte de bem dizer. Um conhecimento escondido, reservado a poucos iniciados, a gramática permitiria dominar a palavra, o que se traduzia na capacidade de fazer encantamentos, de encantar com as palavras certas.

Uma pessoa de bom dizer, que possuía o dom de “encantar” os outros, se dizia ter glamour, essa habilidade de seduzir, como faria uma mulher de grande beleza. Baseado nisso, o escritor Sir Walter Scott popularizou o uso da palavra no sentido que associamos hoje à elegância, charme e beleza.

Aquele frasco de perfume me pareceu a coisa mais glamorosa do mundo. Não são assim as coisas impecáveis, transparentes, reluzentes, lisas, limpas? Curvas perfeitas na sua estrutura. Aquele tilintar limpo ao toque da unha: puro glam, puro glow, puro glee.

Desde que li Ivonne Bordelois, fiquei muito sensível aos movimentos da boca ao falar, é mais que só fonética, é o que a boca faz e o que certas combinações de consoantes evocam. É o caso muito representativo das palavras nascidas de onomatopeias: mugir, balir, piar... etc. O som cr- costuma evocar algo se quebrando. No inglês, a palavra crack vem da onomatopeia, e significa quebrar, romper, fraturar. Parece também o caso de crujir, que tem um parentesco interessante: vem de cruz, que por sua vez vem do latim crux, antes de ser símbolo cristão, era instrumento de tortura. Daí vem crucio: torturar (e o malefício cruciatus/crucio de Harry Potter...).

Minha peregrinação linguística me levou a caminhos inesperados no lado espanhol: crepitar, muito próximo de crujir, vem do francês crépitér, com o mesmo sentido de “estalar” ou “quebrar”; e crápula, pessoa ébria, dedicada à bebida e à vida devassa. Esta vem de crisma, sendo a cabeça o lugar onde o bêbado sente a dor. Crisma era o óleo sagrado usado nas liturgias, que acabou nomeando a parte do corpo onde era aplicado: a testa. Depois, por extensão, virou sinônimo de cabeça. Daqueles óleos sagrados nasceu creme e Cristo, que significa “o ungido”.

No inglês, palavras com cr- também remetem a madeira quebrando: crush, crash; ou algo crocante: crisp, crust. Dizem que todas vêm do holandês craken.

Será que cristal tem a ver com essa associação onomatopaica? Cristal vem do grego kristalus, que significa gelo, vidro transparente. Semânticamente, se referia mais ao cristal mineral, claro que bem anterior ao vidro soprado. Mas, vendo a semelhança do vidro com minerais, não deve ter sido difícil fazer essa ponte. E não é coincidência que um cristal também se quebre, se frature, como o vidro.

Não esclareci algo importante: as palavras em espanhol e português pra vidro e cristal são as mesmas, por isso toda essa pesquisa vale para ambas. Seria uma falta de consideração não falar do português, sabendo que, quando terminar de escrever isso, vou correndo mostrar pra Lara e Maurício. O brasileiro é uma língua deliciosa, mas mais que um conjunto de palavras ordenadas pela gramática, é uma música da linguagem. Muitas vezes não me entenderam numa loja ou num ônibus, não por não ter falado corretamente o idioma, mas por não ter cantado as palavras do jeito certo. Um brasileiro vai ler isso e dizer o mesmo de sempre: que o sotaque varia muito, que alguém da Bahia fala bem diferente de um mineiro, etc., assim como um venezuelano diria o mesmo comparando Maracaibo com Táchira. Mas, no geral, um brasileiro, não importa de onde venha, fala o português musicalmente, subindo ou descendo o tom nas mesmas sílabas, deixando o final das palavras mais agudo, gesticulando as frases com um charme de povo e de mar, como se cada coisa que dissesse fosse um provérbio ou um jogo de palavras.

Estava pra entrar na casa da Lara e do Maurício e me deparei com esse frasco de perfume, e agora até sei por que Cleópatra se chama Cleópatra. Lara estava arrumando um dos quartos, porque chegariam hóspedes à tarde. Eu tinha levado o almoço pros dois, e antes de sentarmos, a ajudei a arrumar. Quando tudo terminou, servi a comida. Lara atravessou a sala mais uma vez rumo ao quarto dos hóspedes, me disse que faltava uma última coisa: nas mãos, segurava aquele frasco com pata de camelo e pescoço de girafa, cheio de água e com uma flor violeta saindo. A flor parecia pretensiosa na nova casa de vidro e água: foi a escolhida entre as incontáveis violetas que crescem ao redor da casa, pra ser ela e só ela a enfeitar aquele frasco. O que será dessa flor? Algumas flores jovens devem ter a vaiado de ciúme, outras mais velhas a despediram com orgulho, sabendo que ela foi a mais afortunada, colhida na plenitude da juventude.

Ficou claro pra mim que subestimei a utilidade daquele frasco. Era a água capaz de respeitar a nudez despudorada do vidro, e sua proximidade etimológica parece apenas atestar a manifestação verbal de algo que só pode ser visto: o caule da flor nadando dentro do frasco: perfume de flor.

com os camarões no ponto de caramelo
com os camarões no ponto de caramelo

O almoço foi delicioso: suprema de frango com purê e tomate. Ficamos conversando durante a sobremesa, e ela se levantou e continuou limpando: desta vez, varria o chão da casa, e seguia confessando: acha que, embora a moça que faz a limpeza arrume bem, ninguém arruma como ela. Me explicou que gosta de jogar sabão de lavar louça no chão e depois tirar a água, e deixar que seque. “Com o sol que faz aqui, seca rapidinho”. Lara parece ter aquele síndrome, o de limpar algo até fazê-lo desaparecer. Todo o seu Lar é um grande frasco de perfume. O Lar dela: um grande frasco de perfume.

Agora eu entendo perfeitamente o sentido que habita por trás desses frascos: o que é um perfume? O que ele representa? Elegância, opulência. Alguém entendeu, há mais de um século, que o frasco que contém o perfume é uma representação tridimensional das sensações que o cheiro evoca.

Uma vez acabada a substância, o vazio que ela deixa parece conservar seu próprio singelo, esperando os feixes de luz pra fazer seu espetáculo visual. E há, nesse ar contido no vidro, o conceito mesmo do garbo que um dia foi, uma saudade do perfume que se conforma com apenas a luz.

E há mais: há um espaço ali que fala conosco, como falam as garrafas nas paredes dos chalés do Lar da Lara. Falam de encanto e delicadeza, assim como as curvas desse frasco que, apesar de ser feito de material sólido, tem a propriedade de espiralar-se e exibir uma pele lisa como se fosse um pedaço de lençol de seda movido pelo vento.

Talvez seja um pequeno instinto vestigial: tendo sido criaturas vindas da penumbra do mar, emergindo pra terra em busca da claridade do dia, agora encontramos nas manifestações mais sutis da luz, o encantamento primordial que nos fez segui-la.

a delícia
a delícia

 

 


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